Feeds:
Artigos
Comentários

Parar

Neste momento, por razões pessoais, o Lugar da Alma, que, de resto, tem andado quase parado, vai mesmo parar.

Abdel Hayy

A terra sempre foi redonda

Edição da Universidade Estadual de São Paulo

Dizem os historiadores da ciência que antes não havia ciência, que a ciência é algo deste tempo. E é verdade, antes não havia aquilo a que os de hoje chamam “ciência”. É claro que antes de eu cá estar não estava. Tautológico.

Mas há muitas mentiras ou, quando há boa fé, muita ignorância que resulta apenas de um deliberado obscurecimento das fontes.

Os “antigos” não estavam muito interessados nas coisas da terra, a não ser na medida em que elas reflectiam as do céu ou eram um obstáculo à ascensão. Por esta razão nunca “desenvolveram” aquilo a que hoje se chama ciência e que só podia ser uma criação de um mundo sem transcendente, de um mundo demasiado mundano.

Sempre houve uma elite que sabia mais do que hoje se poderia imaginar, sobretudo porque esse saber não era “empírico”, mas inteiramente intelectual. Os pitagóricos sabiam que a terra era redonda (Aristarco de Samos revelou o segredo no século III antes de Cristo…). Para não irmos mais longe, basta lembrar que Ibn Tufayl, no conhecido livro “O Filósofo Autodidacta”  (referido entre nós por António Telmo), diz, entre outras coisas, isto: “Consta nas ciências matemáticas, por demonstrações convincentes, que o sol é esférico, tal como a terra[!]” Trata-se de uma obra do século XII, com um prestígio tão grande que o judeu Moisés de Narbonne (em 1349) fez uma versão rabínica do livro acompanhada do seu próprio comentário.

Os “antigos” não revelavam tudo o que sabiam, porque conheciam a importância da disciplina do arcano. Há conhecimentos que não devem ser divulgados porque a sua má compreensão tem consequências terríveis. Haverá algum estudioso que nos pudesse hoje mostrar qual foi o impacto que teve a revelação de isto que sempre se soube: que a terra não é o centro físico do universo, que a terra gira em torno sol?

Na consciência popular isto tem um impacto imenso, incalculável mesmo. O relativismo, para dizer o minímo, tem uma das suas fontes aí, e não a mais pequena. De resto, e na verdade, para além de tudo o que perdemos, houve algo que ganhássemos com esta descentração?  O sol continua, no entanto, a girar em torno da terra, é claro; assim o vemos e por isso dizemos que o sol sobe e desce, quando é a terra que “desce” ou “sobe”: “desce” no nascer do sol e “sobe” no pôr-do-sol.

Línguas sagradas e línguas consagradas

Lápide da Sinagoga de Tomar

Lápide da Sinagoga de Tomar (fot. s/ autor)

Há línguas que são sagradas, línguas que são litúrgicas e línguas que não são uma coisa nem outra. A lição é de René Guénon e ilustra ou exemplifica a asserção justificando que há línguas consideradas sagradas porque uma revelação foi feita nessa língua, quer dizer, Deus, por assim dizer, “falou” nessa língua – é o caso do hebraico ou do árabe, por exemplo.

Há línguas que não são sagradas, mas que são utilizadas para a liturgia – é o caso do latim ou do grego. (Quando Guénon escreveu sobre isto ainda a Igreja não tinha espartilhado as línguas litúrgicas por todas as línguas existentes ou possíveis. Creio que ele não consideraria esta imensidão de línguas em que a liturgia agora decorre…).

Uma pergunta, no entanto,  se levanta a propósito deste critério de Guénon: é o facto de a revelação ser escrita que torna a língua sagrada? E no caso de Deus “falar” através de profetas e não se fixar em escrito? Essa língua é sagrada? A questão é mais importante do que poderia parecer, porque a “intensidade” do destino transcendente dos povos está relacionada certamente com esta questão. Em Portugal temos uma “Gramática Secreta da Língua Portuguesa” (de António Telmo) que aponta, com uma nitidez que não pode deixar de impressionar, para a ideia de que o português (a língua…), estando muito embora em decadência, parece ter uma estrutura sagrada. É o mesmo António Telmo quem chama a atenção para o facto muito interessante de que, pela mesma altura sensivelmente, D. Dinis em Portugal, Mestre Eckhart na Alemanha e Dante em Itália, estão a escrever nas respectivas línguas e não em latim, como seria esperado. O que pode significar esta mesma atitude, na mesma altura, por diferentes “autores” (e que autores!) em relação à não utilização do latim?

Trata-se, pois, de procurar saber isto: a língua em que pensamos e falamos pode ser veículo do sagrado? Dado que está em degenerescência nítida, isto deixou de ser possível? – é o que, naturalmente, parece. O argumento de Guénon tem uma apreciável vantagem: uma língua fixada por uma revelação escrita não está tão sujeita à decadência ou à “erosão”, mas não é demonstrativo por si só. O que pensar das línguas faladas pelos índios norte-americanos, para dar só um exemplo, e nas quais decorreram revelações proféticas? Quer dizer, como classificar e até como saber em que línguas acontecem revelações que não foram registadas por escrito? Ou apenas consideramos as que estão escritas? E as civilizações que até há bem pouco tempo praticamente não escreviam e cuja tradição se perpetuava apenas oralmente? Poderíamos acrescentar, tendo em vista este último caso,  a classificação de “línguas consagradas”?

Boas vindas

 

 

Agora mudámo-nos para este lugar que responde melhor às necessidades do blogue. Deste modo, esperamos poder conseguir abranger uma área mais vsta.

 

O blogue está dividio por páginas que se abrem a partir da barra que poderá encontrar acima:

1. Início: é onde colocaremos textos mais actuais ou de uma natureza mais dispersa.

2. Apresentação: serve apenas para dar a conhecer as intenções gerais deste blogue.

3. Páginas de Doutrina: iremos gradualmente fazer uma súmula de textos com diversos aspectos da doutrina tradicional em Portugal.

4. Páginas de Contemplação: aqui iremo colocando textos “operativos” de autores portugueses.

 

Abdel Hayy

Reflexões entre Brasil e Portugal

Sahara

Sahara

1. Há quem negue, mas não deixa de ser interessante que o Ceará, uma zona desértica do Brasil, tenha um nome tão semelhante ao deserto magrebino: Sahara. Poderiam os mouriscos, viajando nas caravelas e  chegados a uma zona cuja paisagem lhes era tão familiar ter atribuído o único nome que descreve essa imensa aridez ardente na sua língua natal? Será, pois, o Ceará, o Sahara do Brasil?

2. Em  Portugal, um pouco por todo o lado, há lendas de mouras encantadas, de tesouros dos mouros, de princesas ou príncipes mouros. Há quem diga que o povo “ignorante” atribui a tudo o que seja antigo o atributo de “mouro”. É um facto, mas isso não explica a razão. A razão deve ser uma só: o povo é o guardião da memória “colectiva” do país e, neste caso, aquilo que ali se guarda é a memória de que houve um tempo maravilhoso que este país viveu, um tempo que foi o do Portugal mourisco e, por isso mesmo, também cristão e judeu. A ingratidão e o complexo do discípulo que quer matar o mestre é que fazem com que se acabe por esquecer entre as elites, aquilo que o povo “sabe” muito bem.

Dirão os eruditos que muitas dessas lendas são mesmo pré-românicas, quanto mais pré-islâmicas. Mas o importante aqui não são as lendas, mas o facto de o povo ter revestido essas lendas (por todo o país, de norte a sul!) com uma veste “moura” e não outra. Só quem tiver perdido um mínimo de objectividade é que pode ficar indiferente à quantidade de lendas ligadas a “mouros”.

Mehmet II

Mehmet II

ψ
“Una religio in rituum varietate” era o sonho de Nicolau de Cusa, que chega a propor, em 1453, um concílio universal em Jerusalém que procurasse o reconhecimento e o acordo de todas as confissões religiosas (“uma religião”) na “diversidade de ritos”.
Já, antes, Raimundo Lullio, que escreveu muitas das suas obras em árabe, afirmara que o islão é a religião mais próxima do cristianismo.
Os exemplos de inteligência universal são muitos nos tempos passados; por que esquecemos o melhor dessa época – aquilo com que verdadeiramente devemos aprender – e lembramos, repetindo, o pior? Hoje, quando se procura o “diálogo” entre religiões, está-se a partir já de um ponto de vista laico, sentindo a religião como algo inferior, algo desprovido de valor em si mesmo e que o “bom senso” dos ateus vem “salvar”, apelando à “racionalidade”, à “razoabilidade”. Este discurso da contemporaneidade é altamente corrosivo. O diálogo entre religiões, se tem de existir, é a partir de dentro delas; quem está fora delas não pode ter a compreensão plena do que se trata e mesmo muitos dos que estão “dentro” são apenas a expressão da sua “fé”, presos da crença, incapazes, por isso, de se elevar ao plano do intelecto: único “lugar” em que se podem encontrar aquelas almas como os Cusa ou os Lullio ou os Mehmet II.

Os muçulmanos de hoje podiam também lembrar-se dos seus melhores exemplos: para ficarmos na mesma época, o sultão Mehmet II, entrando em Constantinopla (1453), restaurou (note-se!) o Patriarcado Grego Ortodoxo, rodeou-se de sábios e artistas de toda a Europa, protegeu e interessou-se muito pelo cristianismo (que era a religião da sua mãe!!!) e protegeu os judeus.

E o nosso cardeal que julga que “estamos agora a começar o diálogo” inter-religioso…
A nossa tradição, o melhor dela, está no que retivemos da Andaluzia e no modo como soubemos olhar para as outras tradições; o olhar da Igreja, infelizmente, foi – e não devia! – aprisionante, levou-nos a condenar, a queimar, a estigmatizar muitos dos melhores cristãos, dos melhores judeus e dos melhores muçulmanos. Saibamos voltar a olhar por cima dos telhados: seja a partir da torre sineira da igreja, do minarete da mesquita ou daquela yeshiva que fica no piso superior de uma sinagoga. Na diversidade dos ritos, que se reconheça a adoração do mesmo Deus desconhecido.


ψ
Henry Corbin

Henry Corbin

Desta vez, gostaria de chamar a atenção para um texto de Henry Corbin em que, lembrando Asín Palacios, se refere uma curiosa afinidade ou prolongamento interior, por assim dizer, entre o priscilianismo e uma escola do sufismo andaluz. As pistas singelas que aqui vou deixando são como lembretes de uma nossa história íntima, sagrada, escondida, que nenhum historiador, com olhos exteriores apenas para o que julga ser “factual”, nunca poderá ver, por muito que olhe.
Não nos importa “provar” nada disto, o essencial é que alguns possam aproximar-se e, “por dentro”, retomar a herança do Portugal profundo. Esses passarão sempre despercebidos, longe das pequenas guerrinhas, deliberadamente longe de protagonismos e das luzes do exterior. Falarão entre si, encontrar-se-ão em reuniões esporádicas, em Mértola ou na arrábida de Sesimbra ou na arrábida do Porto, na sinagoga de Tomar ou no mosteiro de Alcobaça ou no dodecaedro de Almeida, ou apenas no café Luz Verde. Ninguém saberá que é a eles que se deve a perpetuação de uma certa “presença”.
E agora aqui vai o texto referido:

“A primeira questão que se coloca a propósito de Ibn ‘Arabî é a de distinguir qual a parte exacta, antes de abandonar definitivamente o Ocidente islâmico, que ele pôde assimilar do esoterismo ismaelita ou de um esoterismo aparentado. Encontram-se indícios disso na sua familiaridade com a escola de Almería e no facto de ter feito um comentário à única obra que chegou até nós de Ibn Qasî, iniciador do movimento dos Murîdîn, no sul de Portugal, onde se reconhecem muitos traços característicos de inspiração xiita-ismaelita. Devemos ter em conta um fenómeno notável e simultâneo, numa e outra extremidades geográficas do esoterismo islâmico: o papel do ensino de um Empédocles, transfigurado em herói da teosofia profética. Na escola de Almería, na Andaluzia, Asín Palacios revelou com cuidado a importância deste neo-empedoclismo, ao mesmo tempo que se comprazia em ver nos discípulos de Ibn Masarra (ob. 319/931) os continuadores da gnose de Prisciliano. Em simultâneo, no Irão, a influência deste mesmo Empédocles se fez sentir tanto num filósofo correspondente de Avicena, Abû’l-Hasan al-‘Amirî, como na cosmogonia de Sohravardî e na do Ismaelismo.”

in Henry Corbin, L’imagination créatrice dans le soufisme d’Ibn Arabî. S.l.: Aubier, reed. 1993

Este trecho, talvez excessivamente técnico para alguns, não deixa de ser extremamente sugestivo na fecundidade densa das pistas que abre: de que modo a gnose priscilianista se pode ligar com o sufismo andaluz?