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Páginas de contemplação
Nesta secção procuraremos ir editando textos contemplativos de autores portugueses; assim se procurará mostrar o modo como a tradição portuguesa se reúne à tradição universal no essencial, mantendo um caminho próprio: a mesma doutrina acima de um diferente método ou caminho.
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A importância dos ritos
«Será este novo e vero conhecimento, que permitirá também atingir através dos ritos uma potência e dela participar: poder vernestes a actualização e captação dessa potência, e não formas interceptantes, ou vazias de conteúdo, para além das quais, ou nas quais, não se consegue, acaso, sentir, realizar, nenhuma imediataneidade. Mas então participar deles, será usufruir essa verdadeira potência neles contida, aceitá-los como formas de captação e presentificação dessa potência: exactamente como uma sua manifestação, uma força.
Assim, mais do que nunca, será necesario ao cristianismo a não-liquidação dos seus mistérios e ritos. E dos seus mitos, os eternos, como aquelas formas do ser mundial que nele tomaram manifestação.
Porque eles serão a forma visível (em todo o aspecto exterior e morto com que nos possam agora surgir) do seu esoterismo: do centro escondido que o formou e o justificará. E será a redescoberta e revalorização desta sua mensagem escondida, guardada em linguagem secreta, o que possibilitará a renovação do cristiansmo. Ela trará a sua próxima desocultação, sua epifania.
A sua renovação não se fará por uma anulação do seu mistério, um esvaziamento do seu cerne: mas pela sua total afirmação. Ser-lhe-á preciso viver, a partir de agora, no seu interior, e não no seu exterior: será numa mudança de movimento em que consistirá a sua reconversão. Viver o outro lado, o outro mundo, que está contido no cerne do critianismo, como sua verdade, sua essência.
O que será o oposto duma sua mundanização – mas a afirmação do seu transcendental – na imanência.
Porque o que mais do que nunca será necessário, é a sua sacralização.»
(Dalila L. Pereira da Costa, A Força do Mundo, pp. 140-141)
Temos que lembrar que este texto é de 1971; é patente a preocupação da autora com o
movimento “renovador” do concílio, que veio alterar ritos, em certos aspectos veio mesmo inverter.
Nunca é de mais lembrar a importância da prática de um rito tradicional.
a) A Força do Mundo
por Dalila L. Pereira da Costa
O fim da ilusão
«O êxtase revela a verdade, a Realidade do mundo, e a antiga visão que tínhamos dela, é doravante vista como puramente ilusória. E nesta nova visão o mais importante é isto – há uma anulação do mal. Que é então visto como realidade unicamente aparente, fictícia. Aí a essência gloriosa do mundo se revela. O êxtase é a revelação dum mundo novo e o fim súbito duma ilusão, Mâyâ. Ilusão que aparece como qualquer coisa que nos escondia este mundo contemplado, visto agora a nu, como o verdadeiro.
Um descamar total: ver a face da verdade. E isto em relação ao nosso ser próprio e àquele do mundo: são dois novos seres que nos são revelados e que aí urge assumir. A causa da antiga ilusão, é vista como esta opacidade que nos revestia a partir da infância e da era adâmica: este afastamento de Deus, a Queda. As primeiras reminiscências da infância, os sonhos, os estados poéticos alguns estados visionários (especialmente na passagem dum estado do ser para outro, as falhas: entre sono e vigília), serão outras tantas possibilidades de prospecção do Ser, de momentaneamente o ver, de nos aproximarmos dele, vivo, a nu. No seu aspecto secreto e verdadeiro que agora quotidianamente não nos é acessível e concedido.»
(pérola retirada de um colar chamado A Força do Mundo. Porto: Lello & Irmão, 1972, pp. 31-32)
Transmutações
«Esse mundo, estava fora ou dentro de mim? Estas distinções não tinham nenhum sentido: não existia nem dentro nem fora; como se os limites habituais do meu ser tivessem caído, ou rebentado: nesse momento, senti uma realidade transcendente, o Outro, mas ao mesmo tempo, impossível de separar do meu ser: eu era essa realidade ela própria. Porque nesse momento, eu era o Outro, e nunca fui eu mesma tão profundamente, tão irredutivelmente; nunca atingi tão poderosamente o meu ser verdadeiro, a minha identidade.
Mas como se pode sobreviver a esta prova? Como se pode continuar a viver como dantes? Como com esta força nova, nunca antes sentida, que de súbito cai sobre nós e nos cerca, não ficamos destruídos, esmagados? Mas o nosso ser se dilata, livre como nunca e sereno. Como sentir e ver pela primeira vez a verdade nua, a pureza de tudo, não nos aniquila? Como suportamos, quando ela parece não poder existir senão para além de todo o humano? E desconhecida, nunca suspeitada, e que agora vem, aparece subitamente diante de nós, nessa evidência que devia ser terrível mas na qual tudo é subitamente à nossa medida (ou somos nós que subitamente somos à sua media?), e na qual nada nos espanta nem nos assusta: como coisa perdida há muito e aqui, de novo encontrada. É este facto, súbito, pleno e integral de suportar o Ser, que agora (mas só agora) me perturba. E o que agora vejo, é uma súbita transformação do nosso eu, que, transcendendo os seus limites e poderes quotidianos, fica à imagem do Ser revelado nesse momento – e com ele transmutado, identificado. Isso que imediatamente me surge como a morte e o outro mundo.»