Há línguas que são sagradas, línguas que são litúrgicas e línguas que não são uma coisa nem outra. A lição é de René Guénon e ilustra ou exemplifica a asserção justificando que há línguas consideradas sagradas porque uma revelação foi feita nessa língua, quer dizer, Deus, por assim dizer, “falou” nessa língua – é o caso do hebraico ou do árabe, por exemplo.
Há línguas que não são sagradas, mas que são utilizadas para a liturgia – é o caso do latim ou do grego. (Quando Guénon escreveu sobre isto ainda a Igreja não tinha espartilhado as línguas litúrgicas por todas as línguas existentes ou possíveis. Creio que ele não consideraria esta imensidão de línguas em que a liturgia agora decorre…).
Uma pergunta, no entanto, se levanta a propósito deste critério de Guénon: é o facto de a revelação ser escrita que torna a língua sagrada? E no caso de Deus “falar” através de profetas e não se fixar em escrito? Essa língua é sagrada? A questão é mais importante do que poderia parecer, porque a “intensidade” do destino transcendente dos povos está relacionada certamente com esta questão. Em Portugal temos uma “Gramática Secreta da Língua Portuguesa” (de António Telmo) que aponta, com uma nitidez que não pode deixar de impressionar, para a ideia de que o português (a língua…), estando muito embora em decadência, parece ter uma estrutura sagrada. É o mesmo António Telmo quem chama a atenção para o facto muito interessante de que, pela mesma altura sensivelmente, D. Dinis em Portugal, Mestre Eckhart na Alemanha e Dante em Itália, estão a escrever nas respectivas línguas e não em latim, como seria esperado. O que pode significar esta mesma atitude, na mesma altura, por diferentes “autores” (e que autores!) em relação à não utilização do latim?
Trata-se, pois, de procurar saber isto: a língua em que pensamos e falamos pode ser veículo do sagrado? Dado que está em degenerescência nítida, isto deixou de ser possível? – é o que, naturalmente, parece. O argumento de Guénon tem uma apreciável vantagem: uma língua fixada por uma revelação escrita não está tão sujeita à decadência ou à “erosão”, mas não é demonstrativo por si só. O que pensar das línguas faladas pelos índios norte-americanos, para dar só um exemplo, e nas quais decorreram revelações proféticas? Quer dizer, como classificar e até como saber em que línguas acontecem revelações que não foram registadas por escrito? Ou apenas consideramos as que estão escritas? E as civilizações que até há bem pouco tempo praticamente não escreviam e cuja tradição se perpetuava apenas oralmente? Poderíamos acrescentar, tendo em vista este último caso, a classificação de “línguas consagradas”?
